Infância não pode esperar: quando a vulnerabilidade também alcança as crianças
- Raphael Jucá
- há 6 dias
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Atualizado: há 4 dias
A infância é uma fase marcada por descobertas, desenvolvimento, vínculos e construção de possibilidades para o futuro. Mas, quando a vulnerabilidade social alcança uma criança, esse período pode ser atravessado por pobreza, violência, insegurança alimentar, negligência, dificuldades de acesso à educação, à saúde e à convivência familiar e comunitária.
No Recife, um levantamento realizado pela Prefeitura, em parceria cientifica com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRP), em agosto de 2023, registrou 1.806 pessoas em situação de rua, sendo 1.443 encontradas nas ruas e 363 acolhidas em abrigos. De acordo com o levantamento, crianças e adolescentes representavam 4% desse total, o que correspondia a aproximadamente 72 pessoas nessa faixa etária.
Os números são referentes ao período em que o censo foi realizado e não representam uma contagem diária ou atualizada da população em situação de rua na cidade. Ainda assim, ajudam a dimensionar uma realidade que exige atenção: mesmo sendo uma parcela menor da população em situação de rua, crianças e adolescentes estão entre os grupos que demandam maior proteção.

Quando a vulnerabilidade chega à infância
A situação de rua ou a extrema vulnerabilidade de uma família pode produzir impactos que ultrapassam a questão da moradia. Para uma criança, viver em um contexto de instabilidade pode dificultar a permanência na escola, o acesso regular aos serviços de saúde, a convivência familiar e comunitária e o próprio direito de brincar e se desenvolver em um ambiente seguro.
Para a assistente social da Casa do Pão, Maria do Carmo Soares, compreender essa realidade exige reconhecer a criança como sujeito de direitos.
“Olhar para a criança em situação de vulnerabilidade exige, antes de tudo, reconhecer que ela é sujeito de direitos e que suas necessidades não podem ser tratadas como problemas individuais ou responsabilidades exclusivamente da família.”
Segundo Maria do Carmo, a proteção da infância precisa ser compreendida como uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado.
Ela explica ainda que situações que aparecem no cotidiano de uma criança podem estar relacionadas a problemas sociais mais amplos.
“Muitas vezes, por trás de uma criança que chega à escola com dificuldades de aprendizagem, apresenta mudanças de comportamento ou demonstra tristeza e isolamento, existe uma realidade social que precisa ser compreendida.”
Por isso, escutar, acolher e identificar possíveis violações de direitos são etapas fundamentais para construir estratégias de proteção que considerem não apenas a criança, mas também a realidade de sua família.
A permanência na escola é um dos caminhos fundamentais para garantir direitos e ampliar as possibilidades de futuro.
Essa é uma das questões que a Casa do Pão vem buscando fortalecer por meio da articulação com a rede pública. A instituição já realizou encontros com representantes da Secretaria de Educação do Recife e do Conselho Tutelar para discutir o acesso de crianças e adolescentes à educação e buscar alternativas para famílias atendidas pela instituição.
Esse tipo de articulação mostra que garantir o direito à educação também significa olhar para as condições que permitem que uma criança permaneça na escola.
Cuidar da criança também é cuidar da família
A atuação da Casa do Pão também considera as necessidades específicas das famílias que têm crianças. No atendimento diário, pais e responsáveis acompanhados de seus filhos estão entre os primeiros a serem acolhidos para as refeições, buscando garantir que as crianças tenham acesso à alimentação com maior agilidade e segurança.

Esse cuidado também está presente nas ações desenvolvidas pela equipe psicossocial. Recentemente, a instituição iniciou a distribuição de cestas básicas para famílias acompanhadas pela Casa do Pão, priorizando inicialmente aquelas que possuem crianças em casa.
A iniciativa busca atender famílias que, embora tenham um local onde morar, enfrentam dificuldades para garantir a alimentação de seus integrantes. Dessa forma, a entrega dos alimentos contribui para que essas famílias não precisem se deslocar diariamente até a instituição em busca de uma refeição.
A medida também amplia as possibilidades de acompanhamento da equipe psicossocial e ajuda a fortalecer a permanência dessas famílias em seus próprios espaços de moradia.
Como explica Maria do Carmo, a atuação do Serviço Social nesse contexto passa justamente pela construção de uma rede capaz de responder às diferentes necessidades apresentadas por cada família.
“A atuação do Serviço Social nesse contexto é essencial para fortalecer vínculos, orientar famílias, facilitar o acesso às políticas públicas e articular a rede de proteção social.”
A proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade não depende de uma única instituição.
Ela envolve famílias, escolas, serviços de assistência social, órgãos de proteção, unidades de saúde, organizações da sociedade civil e o poder público.
No Recife, a rede municipal também mantém serviços especializados para crianças e adolescentes em situação de rua ou desacompanhados, como o Centro Popinho, voltado ao atendimento desse público.
Para Maria do Carmo, essa articulação é essencial para garantir que a criança seja protegida de forma integral.
“Isso significa trabalhar em conjunto com a educação, a saúde, a assistência social, o Conselho Tutelar e os demais serviços que possam contribuir para garantir segurança, dignidade e desenvolvimento integral.”
A atuação em rede permite que situações de vulnerabilidade sejam identificadas e acompanhadas, evitando que uma necessidade imediata seja tratada de forma isolada.
A infância precisa ser protegida hoje
Proteger uma criança não significa apenas atender uma necessidade imediata. Significa também criar condições para que ela possa crescer com dignidade, brincar, estudar, conviver, sonhar e construir seu próprio projeto de vida.
Cada direito garantido hoje representa uma possibilidade a mais para o futuro.
Por isso, o Dia da Infância, celebrado em 24 de agosto, pode ser mais do que uma data no calendário. É uma oportunidade para olhar para as crianças que ainda enfrentam situações de vulnerabilidade e refletir sobre o que pode ser feito para garantir que seus direitos sejam respeitados.
Como resume a assistente social:
“A infância acontece agora. Cada criança precisa ser vista, ouvida e protegida no presente.”
Na Casa do Pão, esse compromisso passa pelo acolhimento das famílias, pela alimentação, pelo acompanhamento psicossocial e pela articulação com a rede de proteção e de garantia de direitos.
Porque toda criança merece crescer com dignidade, proteção e a possibilidade de construir seu próprio futuro.
Assessoria de Comunicação | Casa do Pão
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